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O São João Batista de Leonardo da Vinci no Louvre — um desvio no caminho da Mona Lisa

Por Dra. Mara Rute Lima Hercelin

Há um ritual contemporâneo no Louvre: caminhar como quem cumpre uma peregrinação laica até a Mona Lisa. O trajeto é quase coreografado pela multidão, pelo desejo de “ver” aquilo que já foi visto milhares de vezes antes — na memória cultural, nas reproduções, nos clichês.

O encontro acontece, paradoxalmente, como um desencontro: um quadro distante, mediado por telas, cercado por ruído.

E, no entanto, Leonardo não é um destino único.Ele é um método.

E, às vezes, o método se revela no desvio.

Se você interrompe o fluxo, se aceita olhar para o lado, encontra uma presença que não compete com o espetáculo — ela o desmonta por dentro: São João Batista. Não é apenas “outra obra” de Leonardo no Louvre. É um ponto de inflexão.

João Batista não “aparece”: ele emerge

O que Leonardo nos oferece aqui não é uma cena; é uma aparição.

João não ocupa o espaço como um corpo situado num mundo. Ele emerge do escuro como um pensamento que toma forma — e isso muda o regime da imagem.

O fundo não contextualiza; ele absorve.A luz não ilumina; ela revela e retém.O contorno não define; ele oscila.

Esse João Batista não é o São João do imaginário construído pela tradição eclesial e pela iconografia popular. Não é o profeta envelhecido pelo ascetismo, vestido com pele de camelo, sandálias rústicas, corpo marcado pelo deserto — a figura dura que anuncia a chegada de Cristo à beira do Jordão ou diante do mar.

Ele não parece consumido pela missão.

Leonardo rompe deliberadamente com essa expectativa.

Uma figura fora do tempo narrativo

O que vemos não é o precursor histórico de Jesus, mas uma figura suspensa fora do tempo narrativo. Não há paisagem, não há Jordão, não há multidão, não há contexto bíblico identificável. O espaço foi abolido para dar lugar a um estado.

O quadro não descreve um episódio bíblico.Ele encena uma condição liminar.

João Batista aparece como um ser na fronteira:entre o visível e o invisível,entre a carne e o signo,entre o humano e o anúncio.

Seu corpo é jovem, quase andrógino, suavemente modelado pela luz. O sorriso — inquietantemente próximo ao da Mona Lisa — não comunica severidade profética, mas ambiguidade. Não há denúncia, não há urgência apocalíptica. Há atração. Há retenção do olhar. Há um convite silencioso.

Esse João não grita no deserto.Ele sussurra no escuro.

O escuro como lugar do sentido

E é justamente esse escuro que importa. A figura emerge da sombra como se nascesse do próprio invisível. Leonardo não usa a luz para revelar o mundo, mas para tornar perceptível aquilo que escapa ao mundo.

João não está “em” um lugar:ele é um ponto de passagem.

O gesto do dedo erguido não funciona aqui como simples atributo iconográfico. Ele não ilustra a frase “Ecce Agnus Dei”. Ele a ativa. O gesto não explica; ele desloca. Ele obriga o olhar a sair da imagem, a procurar um sentido que não está representado.

Nesse sentido, João Batista deixa de ser personagem e se torna função visual: ele existe para ensinar o espectador a não se deter no visível.

Leonardo transforma o precursor de Cristo no precursor do olhar.

Uma pintura que indica, não satisfaz

Esse João não prepara o caminho para alguém que virá na cena seguinte. Ele prepara o espectador para compreender que a pintura — quando atinge seu grau mais alto — não mostra: indica.Não satisfaz: desloca.Não fecha o sentido: abre uma ausência ativa.

Ao recusar o João envelhecido, desértico e narrativo, Leonardo não nega a tradição cristã. Ele a radicaliza. Ele devolve João àquilo que ele sempre foi, no plano teológico mais profundo: não o centro, mas a seta; não o fim, mas o limiar.

E talvez seja por isso que esse quadro, silencioso e frequentemente ignorado no caminho da Mona Lisa, seja um dos gestos mais extremos de Leonardo: uma pintura que não quer ser contemplada, mas atravessada.

Leonardo faz o santo existir como aquilo que o santo é: uma função de passagem. João é, por definição, o precursor — aquele que não é o fim, mas o caminho. E aqui, essa estrutura teológica torna-se estrutura visual.

O gesto: uma seta que fere o olhar

O dedo erguido é um dos gestos mais antigos do cristianismo visual: aponta o alto, a transcendência, o “além” que o mundo não contém. Mas em Leonardo, esse gesto não é um símbolo exterior aplicado a um personagem; ele é uma máquina de deslocamento do espectador.

A obra afirma que a pintura pode tocar o transcendente não representando-o, mas indicando-o.O dedo, o olhar, o sorriso: três vetores que atuam como gramática.

Aqui, o invisível não é negado; ele é construído como ausência ativa. E essa ausência ativa é uma das mais sofisticadas tecnologias do sagrado: o que não se vê passa a ser o que organiza o ver.

Se a Mona Lisa é o ícone, João Batista é o portal

A Mona Lisa é o quadro que o mundo já decidiu que você deve encontrar.João Batista é o quadro que pergunta se você ainda é capaz de encontrar por si.

É como se Leonardo deixasse um comentário silencioso sobre a própria fama: o rosto que atrai multidões e o rosto que, ao lado, desfaz a lógica da multidão. Um oferece o espetáculo; o outro oferece a travessia.

A Mona Lisa captura o olhar pela centralidade cultural.João Batista captura o olhar pelo deslocamento interior.

E talvez seja por isso que, quando você finalmente olha para ele, algo muda no seu modo de estar no museu: você deixa de ser apenas visitante e se torna leitor — leitor de luz, de sombra, de intenção.

Um convite ao desvio

Da próxima vez que você vier pela Mona Lisa, aceite o desvio.Pare. Respire.Olhe para o lado.

E, diante de João Batista, experimente o gesto como método:não olhar para a imagem apenas para possuí-la,mas para ser movido por ela.

Leonardo, nesse quadro, não quer que você “veja” um santo.Ele quer que você aprenda, de novo, a ver.

 
 
 

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