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As Bodas de Caná no Louvre: Veronese e a festa que ocupa uma parede inteira

As Bodas de Caná no Louvre: Veronese e a festa que ocupa uma parede inteira

12 de out.
7 min de leitura

UMA OBRA POR DIA · O LOUVRE NOSSO DE CADA DIA

Mais de cento e trinta personagens, um banquete à moda de Veneza e um milagre que quase passa despercebido. Com quase dez metros de largura, a tela de Paolo Veronese convida o visitante do Louvre a olhar devagar.

Quem entra na sala 711 do Louvre costuma ter um alvo claro: a Mona Lisa. Mas, bem diante dela, uma tela imensa disputa a atenção do público. As Bodas de Caná medem 6,77 m de altura por 9,94 m de largura e ocupam uma parede inteira, com uma multidão de convivas, músicos, serviçais e animais.

O assunto é um episódio do Evangelho, mas a cena não se passa na Galileia. Veronese a transportou para um palácio veneziano do século XVI, cheio de sedas, joias e música. É essa mistura de sagrado e de mundano, e uma história de viagens e disputas até chegar a Paris, que torna a obra tão fascinante.


Paolo Veronese, As Bodas de Caná, 1562–1563. Óleo sobre tela, 6,77 × 9,94 m. Museu do Louvre, Paris.
Paolo Veronese, As Bodas de Caná, 1562–1563. Óleo sobre tela, 6,77 × 9,94 m. Museu do Louvre, Paris.

A encomenda: um banquete para um refeitório

Em 1562, os monges beneditinos do mosteiro de San Giorgio Maggiore, em Veneza, encomendam a Paolo Caliari, conhecido como Veronese, uma pintura para o seu refeitório. O espaço acabava de ser renovado pelo arquiteto Andrea Palladio, e o contrato previa que a tela ocupasse toda a parede do fundo. O pintor podia incluir tantas figuras quanto coubessem na composição, uma cláusula sem dúvida do agrado de Veronese.

A obra ficava suspensa a mais de dois metros de altura, sem moldura e iluminada por luz natural. Para quem comia no refeitório, a pintura prolongava a arquitetura do próprio espaço e dava a impressão de que o banquete acontecia ali ao lado.

Veronese, nascido em Verona e radicado em Veneza, tinha então 34 anos. Protegido do grande Ticiano, acabava de decorar a Villa Barbaro, em Maser, projetada por Palladio. Segundo o Panorama da Arte, pintou a tela em quinze meses, provavelmente ajudado pelo irmão Benedetto e pelo seu ateliê.


Por que uma tela, e não um afresco?

Desde o fim do século XV, depois da famosa Última Ceia de Leonardo da Vinci em Milão, era costume decorar os refeitórios de mosteiros com uma refeição bíblica. Veronese escolheu um caminho diferente: em vez de pintar diretamente na parede, trabalhou sobre uma grande tela. O clima úmido de Veneza não favorecia a conservação dos afrescos.


O Evangelho transposto para Veneza

O tema não é a última refeição de Cristo, mas o seu primeiro milagre. No Evangelho de João, Jesus, Maria e os discípulos são convidados para um casamento em Caná, na Galileia. Quando o vinho acaba, Jesus pede aos serviçais que encham seis jarros de água. A água se transforma em vinho e a festa continua.

Veronese, porém, não se preocupou em reconstituir os costumes da Antiguidade. Colocou a cena no pátio de um palácio renascentista, entre arquiteturas inspiradas em Palladio, e vestiu os convidados com as sedas coloridas e as joias dos ricos venezianos da época. Apenas Jesus, Maria e os apóstolos usam túnicas simples, fora do tempo.


Uma composição em dois andares

A tela é pensada como um palco. Na parte de baixo, muito animada, cada personagem reage à sua maneira ao milagre. Na parte de cima, mais sóbria, dominam as linhas verticais da arquitetura e um céu limpo, onde passam pássaros em voo. Veronese opõe assim um nível terrestre a um nível celeste, sem tentar unificá-los com uma única perspectiva.

As linhas do piso convergem acima da balaustrada, enquanto as da arquitetura apontam para o Cristo, com o halo, no centro da composição. Pode-se ler nisso um símbolo da dupla natureza de Jesus, humana e divina. À esquerda dele estão sobretudo membros do clero; à direita, leigos. Os noivos, curiosamente, ficam em uma ponta da mesa, longe do centro. No conjunto, a cena transmite harmonia, cores vivas e uma luz intensa.

A contagem de figuras varia: o Panorama da Arte fala em 132, e a Wikipédia, em 130. De qualquer forma, são mais de cento e trinta, quase todas em tamanho natural.


Um banquete à veneziana, cheio de detalhes

O prazer da obra está nos detalhes. Há personagens de turbante e até um papagaio, que lembram o cosmopolitismo de Veneza, cidade enriquecida pelo comércio com o Oriente. No primeiro plano, um grupo de músicos toca instrumentos da época. Segundo a tradição, o de branco, com uma viola, seria o autorretrato de Veronese, e o vizinho, de vermelho, teria os traços de Ticiano. A Wikipédia lembra que essa leitura vem do século XVII e que a semelhança com os autorretratos dos pintores é pouco convincente.

À direita, o milagre acontece quase em silêncio: o copeiro olha com surpresa o vinho em seu copo, enquanto os serviçais enchem as jarras. Na outra ponta da mesa, um jovem serviçal negro oferece uma taça ao noivo, e atrás dele o mestre da festa segura uma dobra do seu manto verde. Em volta da mesa em U, convidados, bufões e curiosos se aglomeram. Entre os rostos, Veronese teria retratado contemporâneos seus, como o escritor Pietro Aretino.

Há também cinco cães. Os dois galgos do primeiro plano, presos pela mesma coleira, podem ser uma alusão bem-humorada às obrigações do casamento: um rói um osso, o outro parece mais interessado no gato que brinca com um vaso.


Detalhe dos músicos em primeiro plano; segundo a tradição, o de branco seria o autorretrato de Veronese.
Detalhe dos músicos em primeiro plano; segundo a tradição, o de branco seria o autorretrato de Veronese.


Símbolos escondidos

Por trás da festa, Veronese espalhou símbolos que dão à cena uma dimensão espiritual. O milagre da água transformada em vinho anuncia a Eucaristia, instituída na Última Ceia. No centro da tela, bem acima da cabeça de Jesus, um açougueiro corta um pedaço de carneiro, imagem do cordeiro sacrificial. O frasco de vinho entre as colunas da balaustrada evoca o sangue que Cristo derramará.

Sobre a mesa dos músicos, uma ampulheta lembra que o tempo passa. A missão de Jesus começa, mas seus dias estão contados. Maria, ao lado do filho, veste um véu negro que anuncia o luto futuro e aponta para um copo vazio, como quem o convida a agir.

Entre as colunas antigas, uma estátua de Vênus se defronta com um campanário encimado pela figura de um santo, e a combinação sugere o desejo de reconciliar a sabedoria antiga e a fé cristã.

Detalhe dos serviçais cortando a carne, sinal do futuro sacrifício de Cristo.
Detalhe dos serviçais cortando a carne, sinal do futuro sacrifício de Cristo.

Glorificar Veneza

Atualizar o episódio sagrado era também uma maneira de louvar Veneza, cidade surgida das águas, protegida por São Marcos e pela Virgem. Governada por um doge eleito vitaliciamente, a República se via como um regime perfeito e como baluarte da cristandade contra o avanço dos turcos. Por meio do cenário de uma festa veneziana, Veronese celebra o poder político e a prosperidade de uma cidade excepcional.


De San Giorgio ao Louvre: uma longa viagem

Em 1797, durante a campanha da Itália, a tela é apreendida pelas tropas de Napoleão e levada para Paris, enrolada. Segundo a Wikipédia, foi cortada em sete tiras, depois coladas de novo na França. Entra no Louvre em 1798 e fica exposta no primeiro andar, no atual Salon Carré.

Em 1815, a Áustria, que então controlava a Itália, reclama o retorno da obra a Veneza. Dominique Vivant Denon convence o comissário austríaco de que o tamanho e a fragilidade da tela tornam o transporte arriscado. A Áustria aceita em troca Madalena em casa do fariseu, de Charles Le Brun.

A tela ainda foi posta a salvo em Brest durante a guerra de 1870 e evacuada em 1939, na Segunda Guerra, antes de voltar ao Louvre. De 1989 a 1992, passou por uma restauração acompanhada pelo público, feita no local e sobre andaimes, que gerou debate quando se constatou que a cor do manto de um personagem não tinha sido sempre a mesma.

Em 2007, uma cópia em alta definição, produzida pelo estúdio Factum Arte a partir de digitalizações a laser e em 3D, foi instalada no refeitório de San Giorgio Maggiore, no lugar exato onde o original ficou por mais de dois séculos. As campanhas pela devolução do quadro a Veneza não prosperaram.


O que As Bodas de Caná ainda nos ensina?

Uma das lições da obra é que uma mesma cena pode ter vários níveis de leitura. Quem se detém na festa vê música, sedas, animais, risos. Quem olha mais devagar percebe a ampulheta, o cordeiro, o véu negro de Maria: sinais de que o fim da história já está presente no começo.

Além disso, a tela mostra como um artista pode transformar um episódio de dois mil anos em um espelho de sua própria cidade. A Wikipédia lembra que ela teria inspirado artistas como Delacroix, Géricault, Ingres e até Cézanne.


Diante da obra, no Museu do Louvre

Onde encontrar: Ala Denon, nível 1, sala 711 (Salle des États), em frente à Mona Lisa. O site das coleções do Louvre indica a sala atual, mas confirme antes da visita, pois a organização das salas pode mudar.

Experimente olhar a tela em três tempos.

Primeiro, afaste-se e observe os dois andares: a agitação dos convidados na parte de baixo e a calma da arquitetura e do céu em cima. Procure o Cristo no centro e perceba como as linhas da arquitetura levam o olhar até ele.

Depois, aproxime-se pela direita e pela esquerda. À direita, o copeiro que descobre o vinho; à esquerda, os noivos, quase esquecidos. No primeiro plano, os músicos, o papagaio, os cães.

Por fim, volte ao centro e procure os sinais discretos: a ampulheta, o açougueiro, o frasco entre as colunas. Perceba que a festa continua, mas o tempo corre.


Conclusão: um banquete que atravessa os séculos

As Bodas de Caná nasceram de uma encomenda de mosteiro e viraram um retrato da Veneza do século XVI, com seu luxo, seu cosmopolitismo e sua fé. Mais de quatrocentos anos depois, a tela continua a oferecer ao visitante o mesmo convite: sentar-se à mesa e olhar com atenção.


Ficha técnica da obra

Item

Informação

Título

As Bodas de Caná (Les Noces de Cana)

Artista

Paolo Caliari, dito Veronese (Verona, 1528 – Veneza, 1588)

Data

1562–1563

Técnica

Óleo sobre tela

Dimensões

6,77 m × 9,94 m

Proveniência

Refeitório do mosteiro beneditino de San Giorgio Maggiore, Veneza

Inventário

INV 142; MR 384

Departamento

Pinturas, Museu do Louvre

Entrada nas coleções

Apreendida em 1797; transportada para o Louvre em 1798

Localização

Ala Denon, nível 1, sala 711 (Salle des États)

Referências e documentação

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